“Somente depois de sabermos que somos amados por Deus e quando também o amamos é que esse amor e essa confiança despertarão em nós a capacidade de obedecer” (Lawrence Richards).
Os juízes
Os juízes, que emprestam o nome ao livro, eram líderes que surgiram em Israel para libertar e governar as tribos israelitas em um período de desobediência, apostasia e declínio moral (2.16). Esse período estendeu-se desde a morte de Josué (1390 a.C.) até a instituição da monarquia, com a unção de Saul como rei de Israel (1050 a.C.).
Esses líderes não tinham formação oficial para julgar disputas legais, como a palavra pode dar a entender. Eles eram dotados pelo Espírito Santo, escolhidos por Deus para realizar tarefas específicas (cf. 3.9,10; 11.29; 13.24,25). Os juízes procediam de diversos extratos da sociedade, e até houve entre eles uma mulher (4.4). Tinham muitos defeitos morais, mas eram dotados de especial coragem. Sua obra era brutal e sangrenta, mas era uma luta por sua vida e pela existência de seu próprio povo. Não devemos julgá-los à luz da revelação mais avançada do Novo Testamento, pois viviam em uma época obscura, confusa e violenta.
Em muitas passagens, os termos líder e liderar são mais apropriados que juízes e julgar (cf. 4.4; 10.2,3; 12.8-11,13,14; 15.20; 16.31). A tarefa principal dos juízes era salvar e libertar Israel de seus inimigos (exemplos: 3.9,31; 4.14; 10.1; 13.5). Eles ocuparam um papel fundamental na história da nação em um período em que ainda não havia rei em Israel (cf. 17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
Entre os doze juízes que aparecem no livro, seis são considerados juízes maiores (mais importantes pelo fato de serem tratados em detalhes): Otoniel, Eúde, Débora, Gideão, Jefté e Sansão; e seis são considerados juízes menores (cujas obras são narradas brevemente): Sangar, Tolá, Jair, Ibsã, Elom e Abdom.
Esboço
O livro de Juízes pode ser dividido em três seções:
1. Panorama da situação da época (1.1—3.6). Uma breve análise da razão porque a grande promessa feita a Israel nunca se cumpriu.
2. História dos juízes (3.7—16.31). Um relato cronológico da história dos juízes e das condições da época.
3. Retratos da decadência (17.1—21.25). Um resumo que demonstra de forma muito clara as conseqüências da decisão de abandonar a Deus.
O declínio moral de Israel
Depois da morte de Josué e de toda a sua geração, a nova geração se afastou do relacionamento pessoal com Deus, perdendo a capacidade de confiar nele e de obedecer-lhe. O descanso e a bênção prometidos por Deus a Israel não se cumpriram, por causa do colapso moral que se instalou na nação. Conforme as promessas feitas ao povo, por intermédio de Moisés, as bênçãos da aliança estavam condicionadas à obediência a todos os seus mandamentos (Dt 28.1-14), do contrário, Israel colheria as maldições previstas na aliança (Dt 28.15-68). O desvio dos israelitas pode ser claramente percebido em Jz 1—3:
O ciclo de Juízes
Por causa da desobediência e dos pecados dos israelitas, Deus permitiu que eles fossem afligidos e oprimidos pelas nações vizinhas da Terra Prometida (2.14,15; cf. 3.8; 4.2; 6.1; 10.7; 13.1). Começa então o “círculo vicioso”, pelo qual Israel passou sete vezes, num ciclo de apostasia, opressão, grito de aflição e misericordioso livramento divino. Sete vezes o autor de Juízes diz que os israelitas “fizeram o que o Senhor reprova” (2.11; 3.7,12; 4.1; 6.1; 10.6; 13.1; 21.25) e, por isso, foram entregues nas mãos das nações opressoras.
As nações vizinhas de Israel
O cenário em volta de Israel no antigo Oriente estava repleto de nações. Durante a maior parte da história de Israel e Judá, suas fronteiras estiveram ligadas com as fronteiras de seis diferentes nações:
Temas principais
Apesar do grande número de narrativas, o livro de Juízes oferece uma rica contribuição à nossa teologia bíblica. Vejamos alguns dos temas principais desenvolvidos ao longo da história de Juízes:
1. O livro de Juízes continua a desenvolver a história da vida de Israel na terra prometida a seus pais. Enquanto o livro de Josué descreve a fidelidade e o sucesso de Israel, Juízes retrata a apostasia de Israel em relação à aliança e a opressão resultante nas mãos de seus vizinhos (2.6,7,10-16). O autor conta eventos do começo da vida de Israel para alertar sua própria geração quanto às conseqüências da desobediência.
2. O livro explica porque Israel sofreu com os inimigos (cf. 6.13). A falta estava no pecado de Israel, não na falha de Deus em manter as promessas de sua aliança. Deus era longânimo e misericordioso, ainda que o povo repetidas vezes se esquecesse dele e cultuasse os deuses de Canaã (2.2,3,10-14,20-21). O livro ainda explica que Deus manteve as nações nas imediações de Israel para testar a fidelidade de Israel (2.22,23; 3.4). Israel também devia aprender a disciplina por meio das guerras (3.1-3).
3. O livro também demonstra que Deus responsabilizava Israel por seu comportamento moral e religioso. Embora fosse eleito por Deus e receptor das promessas de Deus, o povo não desfrutaria da bênção daquela posição privilegiada se continuasse em pecado (2.1-15; 9.56,57; 10.11-16).
4. O livro mostra que o Senhor, não as divindades cananéias, é o Deus da história e da salvação. Ele é o verdadeiro “Juiz” (11.27; cf. 8.23) que colocava Israel nas mãos dos inimigos e, então, por seu Espírito, dotava libertadores para lhes dar vitória sobre os opressores. Por meio de intervenções miraculosas na história e na natureza, Deus cumpriu seus propósitos para com Israel (2.16-18; 3.9-10,15; 4.15; 6.34; 7.22; 11.29; 14.6,19; 15.14).
5. Uma importante questão enfrentada pelo autor era a liderança da nação. O livro de Juízes ilustra o tipo de decadência moral que ocorria quando havia ausência de liderança piedosa. Havia um declínio na condição espiritual dos próprios juízes, como os ciclos descritos no livro demonstram. Sansão, o último juiz do livro, era a personificação da imoralidade do período. O livro mostra o que acontecia a Israel, quando não havia um rei piedoso para liderá-lo. Desse modo, o livro defende a instituição da monarquia (17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
6. O livro de Juízes também mostra o poder da fé e da oração. O autor de Hebreus reconheceu que os juízes realizaram suas façanhas por intermédio da fé em Deus (Hb 11.23,33).
Bibliografia: Comentário Bíblico do Professor, Lawrence Richards, Editora Vida; Introdução ao Antigo Testamento, Edições Vida Nova; Os livros históricos, Paul Hoff, Editora Vida; Teologia do Antigo Testamento, Paul R. House, Editora Vida; Bíblia de Estudo NVI, Editora Vida; Manual Bíblico Vida Nova, Edições Vida Nova; Juízes e Rute, introdução e comentário, Arthur E. Cundall e Leon Morris, Edições Vida Nova.
Questões para reflexão:
1. De que maneira a obediência incompleta de Israel prejudicou a sua situação na Terra Prometida? E como a obediência incompleta pode afetar a qualidade de vida dos cristãos de hoje?
2. Mesmo tendo experimentado o poder soberano de Deus sobre a sua História, Israel se rendeu aos deuses dos cananeus, seguindo o caminho da idolatria. Em sua opinião, por que as religiões idólatras exercem tanta atração sobre os homens?
3. Os casamentos mistos afastaram Israel cada vez mais de Deus. Você acredita que alguns tipos de relacionamentos com descrentes podem comprometer o nosso relacionamento com Deus? Por quê?
4. Você se lembra de alguma ocasião em sua vida em que o pecado provocou a disciplina divina, mas o arrependimento trouxe de volta o seu perdão e a paz? Como foi?
5. Como a ausência de líderes piedosos pode prejudicar a vida dos membros de uma igreja local?
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